Wednesday, March 09, 2005

Capas negras de saudade

Vestir um traje, senti-lo, orgulha-lo... será que hoje em dia ainda alguém veste um traje com significado, com sentimento com orgulho por estar a enverga-lo, ou cada vez mais o traje é símbolo de poder, de superioridade?

Nos dias que correm parece já nada fazer sentido e o traje o seu uso então nem se fala. O traje caiu em moda. Compra-lo apenas para sessões fotográficas com a família, compra-lo para mostrar aos vizinhos que se anda na faculdade, compra-lo apenas para se mostrarem e passado uns meses enfiá-lo no guarda roupa e deixa-lo lá morrer. Quem sabe daqui a uns anos não vá servir para a irmã a prima a vizinha?

A primeira vez que vesti o meu traje não liguei muito, sinceramente era um fato normal, o falado fato do estudante. Também que percebia eu de tradição académica... História do traje? Nem pensar. Simbolismos? Ya é porque é....
Não sabia nada também ninguém me tinha explicado nada...
Mas quando trajei pela primeira vez a sério, um ano depois, já quando andava na Faculdade de Letras, aí sim... a sensação foi muito diferente. O nervosismo miudinho do dia da serenata e tudo o resto que sentia, era assim uma mistura de sentimentos inexplicável.
Ao som das primeiras notas das guitarras, quando me foi traçada a capa, as lágrimas teimaram em cair, o coraçãozinho ficou apertado e o orgulho por estar ali trajadinha e com as pessoas que mais gostava perto foi um momento único e que recordarei sempre.

Quase um ano depois olho para trás e recordo todos os momentos que já passei. Eu e o meu traje companheiro de longas horas de vários dias... Capa que já limpou lágrimas que já abraçou aqueles que de alguma forma contribuíram para que não deixasse de sorrir. Capa que protejo como se fosse a minha vida. Recuso-me a vesti-la, a usa-la, orgulho-me de senti-la, orgulho-me de me fazer acompanhar por ela.

Aos meus afilhados, que este ano vão trajar pela primeira vez só vos digo: Tenham orgulho do vosso traje, acreditem que é com ele que vão passar grandes momentos na vossa vida académica, na vossa vida de estudante, uns bons outros maus. Se calhar ás vezes a vontade de o deitar fora de o arrumar para um canto vai ser alguma e nesses momentos eu só vos digo olhem para ele e não o abandonem. Porque o traje também tem a sua vida, a sua história e não merece morrer.

Ad Eternum

8 Comments:

At 2:43 PM, Anonymous sweet said...

Este post não posso deixar de comentar porqeu surgiu no dia em k eu conheci o MEU traje. A emoção inicial foi sem dúvida devido á curiosidade do "como fica". Ver-me ao espelho só pela estética das peças k o constituem.
Só retive a respiração kuando senti o peso de uma capa sobre os meus ombros. A tua capa... Enverguei-a com um orgulho infinito: o orgulho no traje, o orgulho na praxe e o orgulho em ti.
Olho-me agora com a minha capa que aos poucos se irá tornar um prolongamento de mim. Mas não esqueço: foi a tua capa a primeira a abraçar o meu coração.

 
At 7:25 PM, Blogger gimane said...

:) poix é, tb n posso deixar de comentar este post! N vou falar do qt amo o meu traje, mas sim da responsabilidade de uma capa pelos ombros..agora tb já transmites isso aos teus afilhados..e agora sim a responsabilidade e a sensatez ao trajar pesam! Acabou-se o "sou caloiro..posso fazer merda.." Começa o "fazer merda..com consequências" lol ;) Acabaram-se as incoerencias, a ingenuidade..e outros tantos predicados para qd somos caloiras! Começa tudo a ser diferente! Que comeces a adquirir mtos outros predicados k um doutor(a) em praxe deve ter..é o k espero cm praxista e cm observadora, ainda k lá longe, da tua vida académica :) a vontade e a garra já são notórias..o resto vem com a "praxis"! Nc se deixa de sentir o traje..e cd vez k se coloca a capa pelos ombros uma força enorme renasce, alimentada dps com o traça-la, cm k um "bichinho" k está cá dentro..e k ng por mto k keira consegue matar! Gostei do blog..:) afinal consegues msm exprimir akilo k sentes por palavras, basta tentar e kerer..;)*****

 
At 1:17 PM, Blogger Carol said...

Bem...foi preciso coragem, mas cá vai...acho que acima de tudo preciso de falar.

Gostei imenso deste texto, como podes calcular... (ou talvez não). Seja como for, voltou a bater saudade; a negra e doce saudade de um fado que poucos sabem cantar.

Um dia, a praxe chamou-me e eu quis dizer que sim. As manhãs frias foram durante algum tempo o palco de sonhos, de promessas mais ou menos escondidas, de contradições em catadupa que não largavam o pensamento... e logo as tardes solarengas fizeram esquecer o frio matutino que o caloiro julgava sentir naquela floresta. Sim, porque a minha praxe não teria sido praxe sem a floresta.

Vi os mais velhos a passar lições de vida, senti o peso da ausência de outros, e quase jurei que iria orgulhar sempre este amor de alguns estudantes.
Mas apesar da dureza que se avizinhava, e da qual fui avisada, não contei com a ganância daqueles que teimam em fazer da capa e batina uma escada para o poder, não acreditei que pudesse contar com o esquecimento de que todos merecemos um montante mínimo de consideração. Bem sei que quem está a ler isto comenta baixinho que me refiro ao Pedro e ao Espada… mas nem sequer comento. São ambos excelentes pessoas e não gosto que façam juízos por mim... se eu tiver que os fazer, encarrego-me disso. Adiante.

Todos sabem que guardei a capa no armário, poucos sabem que quase todos os dias olho para ela com saudade. E ainda hoje me sinto confusa quanto às razões que me levaram a guardá-la… mas não para sempre. Resta-me honrar a condição de estudante, que um dia vestiu de negro para celebrar a igualdade, a humildade que muitos de nós ousam esquecer…

Não falo das tais razões porque nem eu consigo defini-las correctamente, excepto as que enunciei… mas aproveito para saudar os que vivem a praxe saudavelmente. E, aos caloiros… não sei. Acho que basta dizer: olhem para os exemplos mas sejam vocês mesmos acima de tudo.

 
At 6:31 AM, Blogger Sonia Carvalho said...

Martinha... emocionei-me ao ler este textu e os comentários seguintes!
Revi memorias da faculdade que marcou o meu coraçao,e o inicio da mnh vida academica! Ri-me sozinha por me lembrar dos amigos e dos momentos vividos na tão adorada praxe por todos!
Trago comigo o peso te ter deixado um sonho para trás, e, este ano quando ousar traçar a minha capa vou-me lembrar de tudo o quanto aprendi em Letras! De tudo o quanto o Pedro e o Espada me ensinaram e do quanto me ri contigo e com todos os que deixei em JCC!
Ainda não vesti meu traje. mas quando o fizer sei que vou senti-lo como sinto as minhas mãos e as minhas lágrimas! Nada ficará esquecido! Nada mesmo nada! E tudo porque o destino quis com que me cruzasse àquilo a que xamo amor à camisola, dedicação e sacrificio!!

DURA PRAXIS, SED PRAXIS !!

(Kepp going like that!Allways in my memory*)*
Adorei este texto!

 
At 12:41 PM, Anonymous jessica de sa said...

desculpa so comentar agora...depois d ja teres postado outro texto....apesar de tarde nao posso deixar de comentar...
inda nao sei kual é o "peso" nos meus ombros da capa (apesar de ja a ter)...inda comecei agr a dar os meus passos neste meio novo que e a praxe...comecei agr mas ja trago no meu peito e no pensamento recordaçoes impossiveis de apagar...cada dia vou aprendendo um bocadinho sobre "tradiçao academica" com pessoas como tu e claro como o pedro e o espada...mas nao sei explicar ou traduzir por meras palavras o que isso quer dizer...vou sentindo algo de novo em cada sessao de praxe que me faz querer estar la cada vez mais...toda a gente me fala da queima com um brilho no olhar...falam da serenata com saudade no sorriso...nao sei como sera...com a capa nos meus ombros, provavelmente nao vou conter as lagrimas que serao de alegria e saudade ao recordar as primeiras alegrias de quando aqui cheguei, de quem conheci e com quem partilhei (e continuo a partilhar)este ano de caloiro que tem sido magnifico graças a pessoas cm tu martinha********drt

 
At 3:14 PM, Anonymous matynha said...

não posso deixar de comentar este post, né martinha :) não posso deixar de dizer que partilho esses sentimentos ctg!

A 1ª vez que trajei foi mto especial (embora não tenha sido pela faculdade) senti logo aquele orgulhozinho!Apesar de ter trajado logo passado um mês de ter entrado para a faculdade e de ainda não perceber quase nada de praxe, esperei até Maio, até à Serenata para me traçarem a capa... e as lágrimas cairam... uma felicidade tremenda de ter ao meu lado um grupo de pessoas que estavam a sentir o mesmo que eu... bem...eu axo que a culpa é mesmo das Serenatas...ainda não houve uma que eu não me emocionasse quer tenha bebido uns copinhos a mais quer nao :p

De qualquer maneira o orgulho pelo preto não deve aparecer só em Maio. Eu trajo muitas vezes...pela faculdade...pelo orfeao...e ultimamente pela tuna...e cada vez que o visto sinto-o. Tenho orgulho no meu traje, orgulho na nabiça que trago ao peito e...Orgulho na minha capa (k tem um rasgao pouco grande!!!!! :p) que pesa...mas me suporta!

um beijo muito grande pra ti companheira :)

 
At 4:08 AM, Anonymous Petrus Crucis Vermelhae said...

há quem nao saiba mas as capas negras têm vida. nao é uma vida em que se espelham sozinhas, mas antes vivem na comunhão dos espiritos que as trespassam. a capa vive com a amizade, com os momentos, as experiencias...o amor. a primeira vez que me trajei senti algo diferente, talvez esquesito até. nao dei à capa a importância que agora dou. até pq jornalismo era na altura o q nao é agora. e a capa era apenas um pano em cima dos ombros. vivi experiencias, existi com amigos pela noite atravessando a praça dos leões ao badalar dos sinos da torre dos clérigos...vivi, sorri, chorei, amei. e a capa fê-lo cmg. estar trajado é nunca estar sozinho. o traje é um ser q existe connosco. e claro...com a capa ja me lixei - com licença--ja me fodi, ja fui praxado, ja me caguei todo, ja corri a cidade do porto de um lado ao outro e já...(coisas que só a minha capa e outra(s) pessoa (s) saberão) e nisto está o mistério inerente ao traje. só ele sabe o que nós sabemos e o q sentimos. o traje é a nossa pele.negra...pq são negras as noites em que se ouvem serenatas, se vive a boémia académica, se conquistam amores se perdem outros...se partem corações ou pura e simplesmente se ri de estupidez..mas ri se, vive-se trajado! nunca fui a uma serenta destrajado. nem quero experimentar. estar trajado numa serenata é estar no seio natural das coisas na pele mais natural do habitat, o nosso de estudantes. ouvir o primeiro trinar da guitarra portuguesa entre capas gémeas é algo q nao se explica, partilha-se.as capas fundem os seres, que se perdem na noite. os fados contam nos histórias onde nos identificamos de forma tao natural que parecem nossas. aqueles que ainda nao se trajaram e aos que estao longe do adeus, tendes sorte e invejo vos. o desenho do adeus é um fogo que nos queima devagar e para perceberem melhor o espirito de quem ao fim apresenta a sua capa mas nao a concede ao trespassar do tempo...apenas a deixa falar, deixo vos o seguinte

A minha capa velhinha
É da cor da noite escura,
Nela quero amortalhar-me,
Quando for p'ra sepultura.

A minha capa ondulante
Feita de negro tecido,
Não é capa de estudante
É mortalha de vencido.

Ai!... Eu quero que o meu caixão
Tenha uma forma bizarra,
A forma de um coração,
Ai!... A forma de uma guitarra.

António Menano : Fado Hilário

Ad Eternum

 
At 6:26 AM, Anonymous Anonymous said...

Se calhar falo sem saber do que falo. E digo que sinto sem sentir bem ainda. Talvez ainda seja cedo. No inicio pensamos que é muito duro, muito dificil, ponderamos se valerá a pena ou nao. Fazemos queixas, berramos vezes sem fim, pensamos em deixar tudo para trás.
Mas é quando se veste um traje e se sente o peso da capa, é quando olhamos para vocês e vemos que só 'alguns' é que estão à nossa frente, só aí é que se percebe que uma txirt nao tem peso nenhum, não tem muita responsabilidade. É facil vestir uma txirt, mas não é facil vestir um traje. Envergá-lo traz mais responsabilidade do que alguma vez fui capaz de imaginar. Afinal começo a perceber que cada ano traz o peso de muitas noites. E agora começa a fazer sentido quando me pergunto: "porque é que as coisas são assim?". Talvez agora, embora ainda seja cedo, comece a ver o que isto é, a entender o seu significado. E a desejar passar por muito mais. Agora faz sentido.

 

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